domingo, 25 de novembro de 2012

32.

Em vez de estudar, tenho me estado a aventurar por armários e gavetas desconhecidas da casa da minha avó. Foi assim que encontrei os cadernos. Os diários, os cadernos da escola, as agendas, aquilo que em tempos pertenceram à minha mãe. Folheei, li, sorri e meti-me a pensar. Não abri tudo, nem me achei no direito de tal, mas ainda li uma grande parte, o suficiente para me relembrar que, de facto, a minha mãe já teve 15,16,17,18,19 anos... E o engraçado é que ela era igual a mim, igual à adolescente que eu sou hoje. Alguns nomes, algumas histórias destes cadernos são-me familiares, porque já me foram contadas por ela, de forma despreocupada, como quem recorda algo que já deixou à muito de ser importante. MAs naquela altura, as paixões e as inseguranças eram um drama, um fim do mundo, tal e qual como são hoje, para mim. Daqui a uns anos também irei eu rir-me delas, desvalorizá-las por completo? Claro, mas esse futuro parece ser tão distante e improvavél. E também lhe parecia a ela, que agora tem quase 50 anos e filhos qualquer dia quase criados.
Mas todas as páginas destes cadernos me fazem sorrir. Ela tem as ultimas páginas rasgadas devido aos bilhetinhos, tem conversas com as amigas iguais às minhas, sobre tudo e nada ao mesmo tempo, tem textos que descrevem as suas inseguranças, tal como eu os tenho, tem aqueles nomes das bandas que tanto gostava e, acima de tudo, tem aquela repetição excessiva, aqueles nomes de rapazes, aquelas frases sobre paixões e amores platónicos que, sinceramente, quem não tem? É tão estranho ver na letra dela excertos de canções, frases em inglês escritas por ela, pequenos poemas que apelam ao facto dos seus sonhos nunca se concretizarem. E eu revejo-me assim naquele rapariga de 16 anos, tão igual a mim que podia ser eu mesma mas, afinal de contas, é apenas a minha mãe, a mulher que me criou. E não existe nada mais estranho e, ao mesmo tempo, mais reconfortante que isso.

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